Cientistas do projeto EcoShark detectaram a presença de sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro. A descoberta ocorreu por meio de uma investigação coordenada pela professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, com a colaboração dos pesquisadores José Neto e Victor Alves. O monitoramento da saúde desses animais marinhos acontece desde 2018 na região fluminense.
Pesquisa EcoShark UFRJ
O estudo analisou espécimes das espécies Sphyrna lewini e S. zygaena, classificadas como criticamente ameaçadas de extinção por órgãos como o Ibama e a IUCN. Os animais foram capturados acidentalmente em redes de pesca nas praias do Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana. Como predadores de topo, os tubarões acumulam substâncias presentes na água e na cadeia alimentar, incluindo resíduos de medicamentos descartados pela população.
Dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) indicam que apenas 47% do esgoto gerado no Estado do Rio de Janeiro recebe tratamento efetivo. O consumo de antidepressivos no Brasil cresceu 11% em 2025 na comparação com o ano anterior. Além disso, um levantamento nacional apontou que o uso de medicamentos para saúde mental aumentou 18,6% entre 2022 e 2024.
Sertralina em tubarões
A professora da UFRJ explica que o fármaco chega ao oceano após ser metabolizado pelo organismo humano e descartado via sistema de esgoto. As estações de tratamento convencionais não conseguem remover completamente esses compostos químicos, que acabam liberados no ambiente costeiro pelos emissários submarinos de Ipanema e da Barra da Tijuca. A sertralina é atualmente o antidepressivo mais prescrito no território brasileiro.
O descarte inadequado de medicamentos impacta diretamente o equilíbrio da cadeia trófica marinha, visto que os tubarões atuam na regulação e estabilização do ecossistema. A presença de contaminantes emergentes em elasmobrânquios representa um desafio para a conservação das espécies ameaçadas. O acúmulo de substâncias em tecidos específicos, como o fígado e o cérebro, demonstra a extensão da poluição química nas águas litorâneas.
Contaminação marinha Rio
Os resultados da pesquisa, embora ainda não publicados formalmente, já foram compartilhados internamente no âmbito da UFRJ. O grupo de cientistas mantém o monitoramento contínuo das espécies para entender os efeitos a longo prazo da exposição a esses fármacos. Novas análises devem detalhar como a bioacumulação afeta o comportamento biológico dos tubarões-martelo na costa brasileira.
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